Conto da vida real

Marina levantou mais cedo naquele dia quente de Rio de Janeiro, tirou sua camisola 36 e foi para o banho gelado, o salário da Mãe não tinha dado para quitar todas as contas. Abriu a geladeira e deixou o último pão para o irmão Tadeu. Desde pequena conviveu com sermões de que homem tem que comer mais que mulher, ainda não entendia isso e acreditava nunca ter burrice o suficiente para entender.

Desceu as escadarias do morro pensativa, ainda não conseguira entender o porquê de o irmão andar mais irritadiço e sempre com fome. Acreditava, e queria acreditar, que era apenas uma fase da adolescência e que ela passaria por isso um dia. No auge dos seus 14 anos, Marina tinha muita responsabilidade, tirava notas boas e se saia bem nos tatames. Sua aula preferida sempre foi a de artes, só que não uma arte abstrata e sim uma arte física, a arte marcial, o dom que ela trazia consigo desde a primeira aula de judô voluntário que havia participado na infância.

A vida, por si só, já é um caminho tortuoso. E no morro, no meio da pobreza, é ainda mais desafiadora e desleal, quase que uma questão de sobrevivência. Marina não queria aquilo para seu futuro, aliás, não queria para ninguém de sua família. Seu maior sonho era ouvir o hino nacional no lugar mais alto do pódio com uma medalha de ouro pesando no pescoço, sabia que assim poderia dar melhores condições de vida para sua Mãe e seu irmão, que mesmo sendo mais velho jamais fez às vezes de Pai. O passado de seu Pai era algo nebuloso, apenas sabia que a bala de um policial havia interrompido a vida daquele homem que sustentava a família com rolos e roubos. Marina ainda era pequena quando perdeu o Pai, e pouco entendia o significado da morte, achava que encontraria todos na floresta que seu primeiro animal de estimação habitava após ter sido envenenado pelo vizinho.

No caminho do treino imaginou pela milésima vez a final do feminino de judô das Olimpíadas que ocorrerão no Rio em 2016, o golpe perfeito, o Uchimata aplicado com toda técnica e plasticidade, seu golpe preferido e treinado com maior dedicação com certeza lhe traria esse triunfo. Suas pernas compridas lhe beneficiavam na prática do esporte e já tinham lhe rendido algumas medalhas em campeonatos amadores e alguns estaduais.

O ônibus para, assalto à mão armada. A máscara esconde o rosto dos ladrões mas Marina consegue reconhecer o irmão pelo olhar. Quando levanta para tentar impedir Tadeu daquela loucura, ela ouve um estrondo. A bala que um dia veio de uma arma de um policial e matou seu Pai, dessa vez veio da arma do amigo de seu irmão que não a reconheceu e agiu no impulso quando percebeu o movimento abrupto de Marina. Ali caída no chão do ônibus, junto das mãos firmes de Tadeu estava Marina já sem vida e junto dela a medalha que deixaremos de conquistar.

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Sobre luizcfgf

Administrador de Empresas, Colorado, Quaraiense, metido a judoca, metido a poeta...um pouco de tudo e um monte de nada.
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